Nossa equipe conversou com Cassi Abranches, que é coreógrafa do Grupo Corpo e desenvolveu a coreografia de abertura da Paralimpíada. Ela falou sobre a escolha dos bailarinos e como foi a preparação para a coreografia de abertura.

“Em julho de 2015 a equipe de produtores executivos veio na sede do Grupo Corpo para me fazer o convite, se eu toparia esse grande desafio de dirigir o movimento, de coreografar a abertura dos jogos. Diante do que eles me trouxeram, eu comecei a procura dos artistas que representariam esses momentos. A gente chama na cerimônia, como na Olímpica, por segmentos e a gente desenvolveu artísticamente as cenas. Numa das cenas da cerimônia, eu precisava de dois deficientes visuais, e aí eu e minha assistente, a Daphne, fizemos primeiro uma busca via internet, no primeiro momento a gente faz uma pesquisa de campo, e depois a gente foi a campo. Nós fomos num encontro de deficientes, num dos parques da cidade, e me deram o telefone da Renata. Marquei um teste com ela e com indicados por ela mesmo, dois bailarinos. Fizemos um teste caseiro, com o Oscar e com o outro rapaz separadamente e a Renata. E a gente achou, até porque a Renata e o Oscar já tinham uma química, já tinham trabalhados juntos, que eles realmente preencheriam muito bem esse lugar. O tato para mim é o meu norte, é o meu guia de inspiração. Eu gosto que eles realmente se toquem, que um puxe o outro, ou que um leve o outro, que eles realmente tenham um encontro físico ali, movidos pelo toque, pelo tato.”

Vik Muniz, que é artista plástico, contou como foi a experiência de ser o diretor criativo da abertura.

“ Foi uma oportunidade de poder falar sobre deficiência com uma linguagem que não é um sermão, que não é tentando explicar. Você começa abrindo o coração, e abrindo a cabeça também, para ideia da deficiência. A minha participação na direção da Cerimônia mudou completamente a minha relação com a deficiência. Eu sou outra pessoa depois desses 2 anos e meio. Fiquei muito feliz, muito emocionado de estar no Maracanã. Eu vi um Maracanã de tantas diferenças e completamente integrado, estava todo mundo querendo a mesma coisa e todo mundo participando de forma igual. Foi muito emocionante. Logo de início a gente decidiu fazer uma diferença para a Cerimônia Paralímpica, que a gente focasse no indivíduo, que fosse a coisa da pessoa. E como a gente também não queria fazer uma coisa que estivesse educando muito as pessoas, queria focar no emocional, a gente focou nesse orgão que tem sempre dessa relação, que é errada, que o coração bate, é uma bomba. Mas, na verdade, a gente fala da emoção, a gente sempre fala do coração. Um dos momentos mais simbólicos da cerimônia inteira para mim não é o coração, e, sim, o momento quando nós temos o Daniel Dias pulando na piscina. E começar a Cerimônia com Aaron Wheelz pulando sobre um círculo de fogo, numa cadeira de rodas, já deu a nota também do tipo de Cerimônia que a gente queria. A gente queria criar uma experiência desafiante. Eu acho que é legal, que a gente está vendo a deficiência se manifestar como eficiência, como beleza, como arte, como vitória, como esporte, como patriotismo. As pessoas estão curtindo muito essas Paralimpíada.”

No Centro de Imprensa, conversamos com Laurie Lawira, que é australiano e é assistente de produção do Channel 4. Ele falou sobre como a Paralimpíada pode mudar a percepçao da sociedade sobre a deficiência.

“Eu nasci com seis dedos, então um dedo a mais na minha mão direita e isso nunca me impediu de fazer nada. Eu acho que a cada quatro anos, quando a Paralimpíada acontece, nós ficamos sabendo um pouco mais o que a deficiência é e como nós falamos sobre isso. Quando começamos a falar, quando começamos a explorar o que significa ter deficiência e o que as pessoas podem ou não fazer, isso mostra para as outras pessoas que deficiência é só uma parte da vida com que elas precisam conviver. É um pouco cliché dizer isso, mas a Palalimpíada nos dá a chance de pensar na deficiência de um jeito diferente. O maior desafio deve ser quando a Paralimpíada não está acontecendo, como nós lidamos com as necessidades das pessoas com deficiência. Mesmo que falemos a cada quatro anos, mesmo sendo incrível que possamos expor esse lado da deficiência, a realidade é que a maioria das pessoas não tem comprometimento e o nível de habilidade que esses atletas têm. O que nós também precisamos discutir com a sociedade, no local de trabalho, em tudo que fazemos é o que a maioria que está nessa situação precisa encontrar um trabalho, precisa ter acesso ao transporte público, supermercados, ter acesso a serviços. Nós precisamos começar a pensar além da Paralimpíada, coisas simples como acesso a rampas. Como incluímos pessoas com deficiência visual? Há sinais sonoros nas estações de trem, nos pontos de ônibus, há Braille disponível, língua de sinais para surdos? Coisas assim precisam ser discutidas, não é um assunto somente relacionado ao Rio ou Londres, é uma questão mundial. Nós precisamos tentar fazer o mundo mais inclusivo.”

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